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Moisés e Tico

Fim de tarde, Heloísa foi buscar pão para tomar café com sua avó, enquanto ela batia um bolo. No meio do caminho da volta, ouviu um miado assustado. Pensando ser um filhote, o que se provou logo em seguida. Olhou por entre os arbustos que enfeitavam os muros de uma casa e viu o gato preso. Tirou-o do meio das folhas e galhos. Ele parecia assustado.

Com pena de deixa-lo sozinho, levou-o pra casa. Sua avó gostava de gatos mas não tinha experiência. Limparam o animal, passaram iodo nas feridas, deram pra ele um pires com leite e também um nome católico, Moisés. Ele conseguiu separar as águas da bacia de tanto que se batia no banho.

Heloísa foi a um pet shop ali perto, comprou uma caminha, um pote e um pacote de ração. Nesta noite, ele dormiu no chão, ao lado de sua nova dona. Quando chegou a manhã, o gato já não mais estava ali. Ela o procurou pela casa e não encontrou. Ficou preocupada e saiu à rua. Nada.

Foi trabalhar, com um pouco de peso na consciência. Quando chegou no fim da tarde sua avó estava sentada na cadeira de balanço com ele no colo, vendo televisão. “Passou o dia inteiro comigo”, disse à neta. “ele é muito bonzinho”. Feliz com a cena, relaxou e a vida prosseguiu.

Os meses se passaram. O gato era a alegria da avó. Brincava com o novelo de lã quando ela fazia tricô. Adorava sacolas e caixas, caçava os mosquitos e brincava com as folhas quando ventava. Era uma farra. Ele engordava e todos os dias dava seus passeios pela redondeza. Algumas horas depois de o sol se pôr ele ia embora. “Ele nasceu na rua minha filha, ele pertence a ela”, dizia a avó. De vez em quando o gato não voltava por algum tempo. Como qualquer gato, talvez.

A avó de Heloísa já não andava muito bem a algum tempo e precisou ser internada. Naquele fim de semana, com tantos problemas, Heloísa deixou de ir pra casa um dia e ai, naquele dia, o bichano sumiu.

Infelizmente, não resistiu à doença. No fim do dia do enterro da avó, o gato apareceu. Estava meio descabelado na coxa, havia um pouco de sangue. Parecia que havia se machucado. Helena estava exausta, sentou com ele um pouco ao lado da caminha, acaricou-o enquanto ele ronronava. Mais tarde o levaria até um veterinário. Caiu no sono ali mesmo. Quando acordou, ele havia sumido novamente.

Uma semana depois, com tudo já resolvido, o gato apareceu. Estava com o pelo escovado, impecável. Vinha se esfregando nas pernas de Helena e assim ela sentiu um perfume vindo dele. Pegou-o no colo, e já dava risadas quando tirou dele uma gravatinha. Alguém havia mandado o gato tomar banho em um pet shop. Até as unhas estavam cortadas! Helena sentiu neste gesto anônimo muito carinho e acolhimento. Talvez fosse alguma amiga de sua falecida avó.

Ela perguntou pela rua. Todas as senhoras sorriam para a história, dizendo que a ideia era linda mas que infelizmente não haviam partido delas. Aquele mês havia sido especialmente complicado – a morte da avó e toda a chateação ao redor disto, e o trabalho ia se acumulando. No fim do mês, resolveu presenteá-lo. Repetiria o presente doce que o anônimo havia lhe dado. Foi até o pet shop com o gato na caixa de transporte e pediu que o banhassem. E insistiu que queria também uma gravatinha.

Foi com o gato pra casa e, de habitual, quando caiu no sono o gato foi dar suas voltas. No dia seguinte, como era de se esperar, ele voltaria sem a gravatinha. Mais um dia se passou e lá vinha o gato se esfregando e ronronando quando Heloísa notou no pescoço dele uma gravata um tanto estranha. Pegou-o no colo e viu que na verdade ele tinha um bilhete.

“Muito obrigado por cuidar do meu querido gato.”, dizia. “O Tico ficou bastante feliz, o dono dele também. Num mundo que ainda tem gente que odeia gatos, alguém foi lá e cuidou dele num momento difícil pra mim. A você eu envio o meu mais profundo agradecimento. Renato”.

Como assim? A história parecia repetida, só que de outro ângulo. Helena sentiu uma espécie estranha de ciúmes. Estava lá o Moisés tomando água, ela o chamou pelo nome de Tico, e ele respondeu. Seria o mesmo gato? Afastou-se e chamou-o de Moisés e ele miou.

Este gato tinha duas casas!

Então era para esta outra casa que ele ia à noite e quando sumia nos finais de semana? Resolveu mandar um bilhete da mesma forma.

“Nos últimos meses acreditei que o Moisés havia crescido na minha casa e que ele era meu gato. Agora você o chamou de Tico e estou emocionada e confusa. Queria conversar pessoalmente com você. Provavelmente somos vizinhos, tudo bem?” E colocou seu endereço de e-mail. Dois dias depois ela recebia um e-mail na sua caixa. Era bastante amigável, mas não dava margem pra conversa. Marcaram um encontro na padaria.

Heloísa chegou à padaria e Renato já estava lá. Eles só se reconheceram pela cor das roupas. Renato sorriu ao encontra-la. Eles conversaram bastante. Moravam a uma distância de três quadras um do outro. Heloísa contou como conheceu o gato, foi a vez de Renato. Ele contou que o Tico era filhote da gata da mãe dele, que o conheceu ainda bebê, mas que o gato sempre gostou de passear. E ele sabia que o gato havia se machucado duas vezes na farra. Falaram sobre as marcas de ração que usavam, das manias e brincadeiras do filhote. Renato disse que chegava tarde e o gato passava a noite dormindo ao seu pé, na cama, e que de vez em quando o deixava em um Gatil. O período mais longo, que coincidia com a morte da avó de Heloísa, coincidiu com a sua separação. Ele achou melhor deixar o gato longe da mudança das coisas da esposa, pra ele não se machucar.

Conversaram sobre vários detalhes da vida do gato, e, de pouco em pouco, um pouco mais sobre as vidas deles mesmos. A tarde foi longa, e outras tardes viriam em seguida. Renato e Heloísa se casaram coisa de um ano depois, se mudaram para o mesmo bairro e ai aquele gato boêmio, com a missão cumprida, não precisava mais sair à noite.

* Esta história é baseada em fatos reais. Não que ela tenha acontecido, mas gosto de imaginar que sim

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