CLAudio

São Paulo, 29 de janeiro de 2019. A professora Cristiane entra na sala de primeiro ano do ensino fundamental e não consegue esconder o sorriso. Era o primeiro dia que conheceria aquelas crianças e também o primeiro dia em que, finalmente, iniciava-se o novo programa de educação do governo do Estado. Nomeado pelos jornais como UTC, ou Uma Tablet por Criança, o programa permitia que, a partir daquele ano, todas as crianças e adolescentes do ensino fundamental receberiam do governo um computador pessoal em forma de tablet.

Na verdade, a tablet tinha um nome muito mais simpático. Chamava-se CLAudio ou Computador Livro Audiovisual. O Sistema Operacional era o SOLAnge ou Sistema Operacional Linux Ange. Diziam oficialmente que Ange era o nome. Extra oficialmente era “para Alunos que Não Gostam de Escola”. Outros diziam que era só pra completar o SOL; que era de Anjo, de Angélica; os teoristas da conspiração diziam que vinha de [Julian] Assange. Quem vai saber?

Se os nomes eram simpáticos, o que dizer da Tia Cris? Tinha na sua sala crianças lindas, de todos os tipos, com o uniforme simples em azul e branco. Todos estavam ansiosos. A professora acabava de receber a caixa com as tablets. A tia deu um discurso que sabia que não seria bem lembrado por aquelas crianças. Ela se arrepiava enquanto dizia sobre o quanto tempo o ensino haavia sido feito por papel, lousa e giz. Falou sobre carregar pesadas mochilas, do modelo de educação, das burocracias que os professores enfrentavam, documentações que serviam somente pra serem inutilmente empilhadas sabe deus onde. Claramente emocionada, chamou o nome de um a um dos alunos. Eles se levantavam e ganhavam a tablet. Caiu uma lágrima de satisfação.

A professora deu ênfase ao cuidado que deveriam ter. Que aquilo não era um brinquedo simples, mas um grande companheiro até a nona série. Ensinou os cuidados que teriam e enfatizou que as crianças deveriam insistir que os pais lessem o manual. Passou até na TV.

Lá dizia sobre a responsabilidade de ter um aparelho do estado, sobre como seria limpo, pontos de assistencia técnica, etc.

Era um aparelho de modestas características, o suficiente pra rodar os programas de escola, editores de texto, planilhas, um apresentador de slides e conteúdo interativo, um browser. Por conta deste singular aparelho, as aulas de informática, antes reservadas para crianças mais velhas e uma vez por semana, foram mudadas para três por semana. As aulas eram bem mais curtas, mas eram suficientes e não quebravam o ritmo atual.

As crianças estavam extasiadas. Não aprenderam só a cuidar do aparelho. Aprenderam com ele a se higienizar, lavar as mãos antes de usa-lo. Parece besteira, mas não é. Já no ano seguinte todo aquele cuidado era automático. Tinham naquele objeto mais um objeto de estudo. Muito importante, mas não tão diferente dos livros e apostilas.

A professora Nilda chegou na sala e disse que faria a chamada. O código do dia era o mesmo do número do ano. As crianças ativaram seus bluetooths e fizeram o pareamento com o número 2020. Um aluno estava sem bateria e sua tablet estava em cima da mesa de indução, carregando. Ele foi até a tablet da professora ser fotografado e digitou sua senha. Todos, assim, marcaram presença. A professora depois usaria este esquema do pareamento como uma brincadeira e faria um desafio. Ano da descoberta do Brasil? Ano da fundação do Banco do Brasil? Ano do falecimento de Francisco Ferdinando? Queda da Bastilha? 100*250? Pi?

Era neste começo de aula que os tablets, pelo sistema push/ pull, faziam o download da aula que havia sido preparada para o dia. Era fácil, o professor colocava os arquivos em uma caixa de saída e quando era feito o pareamento, automaticamente, as crianças faziam os downloads. Os arquivos eram, às vezes, apagados automaticamente no mesmo dia. Se fosse um arquivo simples, como uma apresentação, o programa de apresentações era aberto.

Era uma aula de matemática. A professora explicou a tabuada e, enquanto falava, os números apareciam na tela. Animações simples ajudavam a fixar o conteúdo. Ela tinha também seu tablet, um pouco maior e mais potente, e ia dando ali os seus comandos. De vez em quando ilustrava coisas na lousa, objeto que nunca tinha parecido tão legal. Naquele ano de 2020, as lousas de brinquedo foram os items mais vendidos no dia das crianças.

A professora então anuncia os exercícios. Tabuada do dois. Os tablets se inundam de questões e imagens para ilustrar os problemas. As crianças rabiscavam suas anotações no caderno e respondiam no tablet. De sua mesa a professora tinha gráficos e podia acompanhar, em tempo real, a progressão dos alunos. Quando um aluno estava mais atrasado, ela se levantava e ia lá ajuda-lo nas dúvidas. Dá o intervalo. Algumas crianças levam o CLAudio consigo, outras deixam carregando. Quando a professora chega na sala dos professores, faz o pareamento com o computador central da escola e ai é feito o download da chamada, dos exercícios respondidos, das informações estatísticas das crianças. A escola podia assim monitorar o desempenho dos professores e das crianças, sendo um instrumento indispensável a partir dali.

A tia Nilda abre então o programa da próxima aula pra mostrar a outro professor entusiasmado. Eles trocam arquivos úteis, incorporam às suas apresentações e seguem com suas aulas.

Os anos se passam e os professores, com mais tempo de serem professores, tornam-se mais e mais criativos. Uma professora deu um exercício simples para as crianças, mas que seria difícil em outras épocas: sair às ruas à procura de erros ortográficos. Quando encontrassem, tirariam uma foto. Cada foto valeria um ponto e seria apresentada no intervalo para todas as outras crianças da escola. Passaria em uma televisão, tocaria uma música em que o cantor usava e abusava de qual figura sintática? O Solecismo, claro. O professor de redação pediu que as crianças escrevessem suas próprias fotonovelas. A professora de arte distribuiu um conjunto de softwares que eram diferentes instrumentos e desafiou as crianças a fazerem suas próprias músicas e gravarem um clipe. Tudo usando o CLAudio.

A indústria de Software no Brasil – tanto do software livre quanto do software comercial, tradicionalmente fraca por conta de altos impostos e falta de mão de obra, teve um boom enorme naqueles anos. As faculdades e cursos livres das ciências da computação lotaram de gente cheia de idéias, de artistas, de professores. Surgiram linguagens de programação e frameworks voltados para o edutainment, ferramentas de auxílio. Até os professores se aventuraram a criar seus próprios programas para os alunos. Pipocavam jogos educativos no mercado e muitos se destacavam pela qualidade, pelo acabamento, pela inteligência.

O Ministério da Educação fez algo muito legal para os alunos do ensino superior. Era um programa que continha todas as questões dos anos anteriores de universidades federais e os alunos poderiam escolher a quantidade de questões e matérias pra fazerem, em casa, o simulado. Outra coisa boa foi o sistema feito para provas em salas de aula. O professor digitaria as questões e atribuiria a cada uma o grau de dificuldade, numa nota de 1 a 5. Se ele selecionasse que a prova teria 10 questões, seriam distribuídas de maneira aleatória um par de questões de cada grau de dificuldade. Simples, direto, a prova de colas e o aluno teria sua nota imediatamente após a entrega da prova e a escola seria atualizada logo no pareamento, na sala dos professores.

A loja de livros – didáticos e paradidáticos – era um sucesso. As crianças liam mais do que antes. Mas, ao contrário do que se pode pensar, elas começaram a ir até as bibliotecas públicas emprestar livro. Era a moda entre eles.

Claro que vieram várias críticas. Uma delas vinha do governo indiano, dizendo que o CLAudio era a cópia do Aakash. E sabe de uma coisa? Parecia mesmo. Mas como não copiar uma idéia genial? Mas ele era ligeiramente diferente. Tinha reforço e também uma plataforma aberta. Os esquemas de hardware eram todos publicados no site do governo brasileiro pra que o mercado pudesse fazer as próprias peças. Isto tinha um objetivo claro, que era que o governo pudesse cotar as peças e levar as com melhor preço. Além de ter um mercado estabelecido de peças de reposição.

Agora, o SOLAnge não era uma cópia. Ele havia sido desenvolvido pela comunidade, baseado em uma plataforma ligeiramente diferente. A arquitetura aberta do SOLAnge foi alvo de discussão por algum tempo, mas não havia dúvidas de que era o caminho certo. A usabilidade era encantadora e fácil de ser entendida pelas crianças pequenas.

A questão toda é que as crianças estavam aprendendo bem, o mercado de trabalho com informática estava aquecido, os professores tinham mais tempo livre pra trabalhar com educação e menos com burocracia. A economia do país só crescia e vários setores foram beneficiados. Parecia que o tal do país do futuro tinha saído do papel… pra virar um tablet.

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