Dó é um substantivo que insiste em ser masculino. Não sei o que foi que aconteceu, mas os dicionários estão atrasados. Isso dá uma dó!

Qui dó da fomiguinha.

Dó é uma coisa horrível. É um sentimento que você tem pelos outros, mas os outros não têm por você.

Você salva uma coruja que caiu no quintal, todo amarranda por linhas de pipa e assim que ela consegue se livrar daquilo, dá um berro assustador, e voa pra bem longe. Tá nem ai. Você queria o quê? Que ela viesse morar na sua casa e trazer suas cartas? Você acha que é o Harry Potter agora?

Ai você tem dó de uma pessoa da sua família, um desempregado. O ajuda por anos a fio e num dado momento ele te rouba, vai embora da sua casa e nunca mais atende aos seus telefonemas.

A verdade é que dó é o pior sentimento que alguém pode ter por outra pessoa. Não só é vergonhoso ser alvo da pena como ter pena de alguém nos faz agir num modo de ignorância completa. A gente acredita no bom senso das pessoas e agimos sem ele. Doamos e dividimos o que às vezes não temos, sem combinar a hora de parar ou o retorno esperado. Com o tempo nos sentimos abusados e, descoroçoados pela própria ignorância, nos deixamos abusar e passamos a culpar a pessoa. Antes, tínhamos dó, e agora nos sobra a ira, ou, pior, a auto-comiseração. Dó de si mesmo.

Pra piorar, favores repetidos, com o tempo, se tornam obrigações. A porta do carro que você abria para a namorada no começo do namoro, quando cessada, se torna um insulto. “Você antes era um cavalheiro”, ela lhe dirá. As visitas para conversar com a senhora velhinha do asilo fará uma grande falta se você se for antes dela, por qualquer motivo que seja. A deixará triste e pode ser que depois amarga e ai você foi falso e nunca lhe deu a mínima.

É triste amigos, mas ajudar aos outros muitas vezes acaba sendo pior. Infelizmente, muitos de nós (me coloca na lista) já caímos nesta armadilha. Se tivéssemos pensado antes, se agido pela razão ou ouvido os conselhos dos mais experientes, teríamos evitado.

Como eu não sou lá muita coisa pra dar conselho sobre isto, corri pra uma base antiga de conhecimento, chamada Bhagavad-Gita. É o capítulo de um livro sensacional chamado Mahabharata, uma espécie de bíblia, mas vamos deixar esta história pra depois.

Sobre ajudar os outros, a primeira coisa que devemos fazer é não deixar os sentimentos nos dominarem por completo. “Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros pra dentro do casco, está firmemente fixo em consciência perfeita.” (Cap 2 Verso 57)

Se for confirmada a possibilidade de ajudar, o que é totalmente louvável, válido e bom, isto deve ser feito gratuitamente e insistentemente. “No mundo material, quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que venha a obter, sem louva-los nem despreza-los, está firmemente fixo em conhecimento perfeito.” (Cap 2 Versos e 58)

O motivo disto? “É muito melhor cumprir os deveres próprios, embora com defeitos, do que executar com perfeição os deveres alheios. A destruição durante o cumprimento do próprio dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos outros é perigoso” (Cap 3 Verso 35)

Não somos nós quem sabemos o motivo que deixou a pessoa desempregada por tanto tempo. Será que ela não é, realmente uma incompetente e precisa passar por isto para aprender a trabalhar de forma honesta? De forma que, ajudando esta pessoa, nos colocamos a segura-la no colo e trilhamos um caminho que não é o nosso e não deixamos a ela a oportunidade de aprender a lição?

As misérias pelas quais a pessoa passa acabam se tornando culpa sua. Olhe o caso do MC Hammer, que foi sustentar 30 famílias e acabou na miséria. Já assistiu Dogville? Está tudo lá. Já observou algum caso assim de algum conhecido?

Claro que existem casos claros em que a intervenção direta é necessária, como no caso caricato da coruja. Muitas vezes, podemos agir como conselheiros, desde que não cobremos as pessoas de nos ouvirem e por último, ou tomando o problema pra si. Por último, ajudamos agindo como provedores, desde que acertando limites desde o início.

Cada um tem os seus problemas a resolver, isto é chamado Karma, e nós nascemos pra viver juntos. É muito bom ajudar os outros e poder contar com a ajuda e o carinho das pessoas. É doando que se recebe. Mas a bondade feita de forma ignorante, ainda assim, é ignorância.

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