Prata

Adélia tinha um belo par de olhos verdes turmalina. Seu rosto branco, bochechudo era contornado por um belo cabelo, denso, liso, naturalmente avermelhado, que escorria para as costas e o colo farto, de seu corpo rechonchudinho. Suas sobrancelhas eram bem demarcadas e davam um ar que misturava o sensual com o formal. Ela era linda. Se vestia com elegância, batom, anéis, brincos grandes, mas nunca exagerados. Sempre bem perfumada, mas isto não era perceptível pelos carros que rodeavam seu Palio Prata. Tinha acabado de descer a Ponte Nova do Morumbi, seu carro apontava para a Roque Petroni Júnior.

Eis que ao seu lado esquerdo pára um C4, também prata. O motorista ouvia uma música qualquer, muito animada para o trânsito que enfrentava. Abaixou o som e também o vidro do passageiro. Arrancou os óculos e, claramente impressionado, não tirava os olhos dela.

Ela enrubesce, não consegue esconder um leve sorriso. Ele era atraente, daquela forma que só as mulheres vêm. Não que parecesse o Zé Meyer, mas era aquela beleza não visual. Como explicar? Deixo para as meninas.

O semáforo se abre, as motos saem à frente, seguidas por Adélia. André vem logo atrás. Os olhares se encontram de vez em quando pelos retrovisores, o trânsito fluía bem, mas estavam alheios. Ela estava com medo, tensa, feliz. Não sabia o que fazia, não viu o semáforo amarelo da Chafic Maluf vermelhecer. Freou de repente, mas não foi assim com André, que encostou na sua traseira. Assustada, olhou para o retrovisor para ver se ele estava lá. Ele a olhou com um rosto sem graça, indicou que parassem mais à frente, para não atrapalhar o trânsito. Ela assim o fez. Desceu do carro, pegou a bolsa. Ele já estava de pé, celular na mão.

– Você está bem? – iniciou ele a conversa.
– Estou, só fiquei assustada pelo acidente, eu…
– André.
– Oi?
– André. Meu nome é André.
– Ah, desculpe, eu não havia entendido.
– Eu errei aqui, peço desculpas. Eu estava distraído.
– É, eu também estava.
– Ainda está. Você não me disse seu nome. Meu nome é André.
– Adélia- disse ela, enrubescida. Estendeu a mão, que ele segurou de forma delicada, com as duas mãos. Os carros passavam, as motos, os ônibus. Também o tempo.
– Não precisa se preocupar. Eu tenho uma oficina aqui em frente. Você trabalha por aqui?
– Sim, eu trabalho na Santo Amaro.
– Se você quiser e confiar na minha oficina, faço o trabalho ainda hoje, te pago o táxi até em casa e amanhã te entrego o carro.
– Combinado

Ela não sabia o que pensar, mas foi até a oficina com ele. Era limpa, grande, haviam alguns funcionários de macacão. Não tinha por que desconfiar, mas mesmo assim anotou seu telefone, endereço, o nome. Chamou um taxista conhecido e de táxi foi ao trabalho e passou o dia. Estava quase esquecendo do ocorrido quando seu celular toca. Era ele. Disse que não sabia se ela se importava, mas se ofereceu para leva-la pra casa. O taxista estava preso no engarrafamento, longe, demoraria demais. Disse que se ela achasse que, por qualquer motivo que fosse, não “pegasse bem”, que chamasse um táxi e ele a reembolsaria depois. Ela concordou que ele a levasse, estava sem cheques e, convenhamos, curiosa.

Ficou meio nervosa, mas em minutos recebeu outra ligação, ele chegava.

No caminho, conversaram, se conheceram um pouco. Ele a deixou em casa, agradeceu a compreensão e novamente se desculpou pelo incômodo. Perguntou se ela precisava de algo que se fizesse de carro, ela disse que não. Foi embora.
André parou numa padaria, pediu um refrigerante e uma revista. Sentou-se e telefonou para ela. Disse que o pequeno acidente o fez conhecer alguém legal. Disse que gostou dela. Deixou claro o que sentiu e perguntou se ela já tinha alguém. Do outro lado da linha, ela tremia um pouco, ela queria gritar e dizer que sim, que estava sozinha, o que era verdade. Uma verdade recente, que ela ainda queria aceitar, mas não se deixa passar as oportunidades assim. Restou a ela dizer que estava sozinha, mas que não sabia o que responder. Ele a chamou para jantar, ela aceitou, mas não prontamente. Ele disse que passaria lá em uma hora e tomou devagar o seu refrigerante.

Ela correu para achar o vestido que melhor coubesse. Nem vulgar, nem chamativo, nem sem graça e nem formal demais. Depois de algum tempo, achou a roupa ideal, mas não sem reclamar de não ter nada pra vestir. Tomou um longo banho, se perfumou, se vestiu e ele chegou quando ainda calçava os sapatos.

A noite que ainda caía seria fresca, com aquela rara brisa leve de São Paulo.  A noite dos dois foi longa. Foram a um restaurante calmo. Conversaram sobre tudo, riram juntos. A noite foi agradável para eles e terminou de uma forma muito bonita.

Amanhecia, ele a levou para casa, de forma que ela pudesse se arrumar, levou-a para o trabalho em seguida. No final do dia, ela buscou o carro. O serviço estava bom, tinha sido ele mesmo quem havia trabalhado. Ela agradeceu, se despediu com um sorriso e nunca mais se falaram.

Patrícia tinha cabelos loiros e encaracolados, os olhos, castanhos, eram amendoados. A pele dourada, o nariz perfeito. Ela tinha sempre um sorriso nos lábios, era uma mulher divertida, engraçada, de bem com a vida. Ela era linda. Viu André chegando pelo retrovisor quando descia pela Alexandre Dumas. Mas ela tinha um Idea preto, André não a viu.

Vanessa tinha a pele negra, lábios finos, olhar penetrante. Tinha uma faixa na testa, para enfeitar os cabelos levantados, no estilo black power. Usava um par de brincos de argola prateados, exageradamente grande. Usava uma sombra prateada nos olhos, com um rímel pesado. Usava uma blusa leve, que deixava um dos ombros à mostra. Ela era linda. André, que acabava de desviar do carro preto, parou atrás de seu Honda City, prata. Os olhares se encontraram pelo retrovisor. Ele não teve dúvidas: soltou o freio de mão e deixou que a gravidade escrevesse, mais uma vez, pela mão do destino.

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