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No Bar (parte 2)

– Então, calma ai que eu preciso parar de rir.

– Vá se ferrar

– Tá. Põe a breja ai, vamo lá. Eu não tenho bem uma história, mas eu tenho uma fórmula.

– Qual é a idéia?

– É assim. Eu não tenho uma idéia de história. A idéia é a forma de contar a história. E ai eu pegaria Faroeste Caboclo

– Se Faroeste Caboclo tem 8 minutos de música, imagino seu filme.

– A propósito, é isso mesmo, um filme! Tem uma peça de Teatro ai, mas quem vai no teatro? Eu nem sei onde tá em cartaz.

– Mas Faroeste Caboclo tem uma bela história né cara, é emocionante.

– Pois é. Bom, a idéia é a seguinte: a gente faz uma divisão dos planos do filme, pra caber dentro da curva ascendente de uma parábola crescente.

– Oh nerd! Mano, a gente já tomou um número enorme de brejas, você quer que eu entenda o que uma parábola crescente faz? Primeiro, o que é o plano de um filme?

– É uma cena, do começo ao fim. Tipo, tem um corte, aparece uma mão puxando a porta, corta a cena. Isso é um plano. Eu não manjo de cinema, vamos chamar assim.

– Beleza.

– E ai a divisão dos tempos é assim. O filme vai ter tipo 2 horas. A primeira cena é a mais longa do filme. Ela tem, sei lá, 15 minutos ininterruptos. A segunda tem um tempo longo também, mas mais curta. E vai que vai até que as cenas duram tempos cada vez menores, encurtam pra durar segundos.

– Legal

– A primeira cena é aquela que aparece o nome dos atores e tal. Vem vindo a câmera e ambientando, deixando claro que está todo mundo na Ceilândia, Lote 14. O João e o Geremias armados. A cena é demorada, câmera lenta e tal. A câmera anda até a cara do João, pra pegar em primeiro plano, o que ele viu ali. Ele vai caindo no chão com o tiro nas costas, bem devagar, enquanto cai ele vê as câmeras, o pipoqueiro, uma jatada de sangue passa na frente, a visão começa a ficar embassada, o pessoal aplaude efusivamente, mas ele não ouve. A câmera para em cima do corpo do João, olhando pro lado, ele vê o sorveteiro e tal. Tudo sem corte.

– Noooossa, mas que animal!!! Vai ficar bom isso!

– E é ai que a história começa, de fato. Você lembra que ele fala “E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali”?

– Seeeei

– Ai sim tem um corte de cena. Começa a contar a história dele. Não precia mostrar nascimento né. Ele já começa a história com uns 7 anos, aprontando um monte de coisas, tipo roubar dinheiro da santa. Ele já começa com má fama. Eu imagino que o João morava em algum lugar tipo o Alagoas

– Por que o Alagoas?

– Ah cara. Primeiro que é claro que ele é nordestino. A música deixa isso bem claro. Mas ele é do interior, da caatinga né, porque o cara nunca viu o mar. Depois que o Alagoas não é tão pobre, a ponto de ele poder ter uma televisão, e por último, e mais importante, o Alagoas é tido como o estado mais violento do país. Lá o cara quando faz 18 anos o pai dá um carro e uma arma.

– É quase terra de ninguém né.

– Não dá pra entender o por quê. Mas ai cara, a infância dele tbm vai passando quase sem corte. A criança vai crescendo e crescendo até que ele é mandado pro reformatório. Tem outro corte. No reformatório ele aprende a odiar as pessoas por que apanhava pra caramba, por que via crianças num estado pior que o dele. Ele ficava indignado, não entendia por que olhavam torto pra ele e ai ele compra a tal da passagem e vai pra salvador. Mais um corte. Lá ele encontra o boiadeiro, troca uma puta idéia e ai ele dá a viagem pra brasília pra ele, outro corte. Chega lá, ele se surpreende com a cidade, decide virar carpinteiro e ai ele vai pra Taguatinga. Corte. Ai é uma cena entrepolada dele trampando de sol a sol, indo pra zona e ai ele conhece o Pablo.

– Cara, o Pablo no fim das contas era ou não o neto bastardo do bisavô?

– Eu acho que era velho. Eu acho que era sim, tipo, e conhecia muita gente interessante, até o neto bastardo de seu bisavô, dois pontos, um peruano que vivia na Bolívia

– Também acho isso.

– Bom, ai o filme vai ficando mais e mais rápido. Ele começa a plantar maconha, o que eu acho que não tem nada a ver, mas beleza, vira o rei do tráfico da cidade, anda com os boyzinhos, vai preso, é currado, promete vingança dos presos. E ai começa uma série de assaltos, assassinatos e aparece a Maria Lúcia. Ele para de assaltar, volta a trabalhar, aparece o Geremias e ai vem uma breve história dele, roubando e fazendo um festival de música chamado Rockonha. Seria da hora, ele chamaria até o Aborto Elétrico pra tocar

– Hehehe

– Ai cara, tem que arrumar alguma coisa pro João fazer, por que não fica claro o que ele estava fazendo no tempo que ele ficou longe da Maria Lúcia, quando ela casou com o Geremias.

– Verdade cara, é do nada.

– Eu imagino que ele volta a trabalhar de carpinteiro mesmo, mas ai as cenas começam a ficar muito rápidas. Ele desafia ao Geremias, marcam do duelo e ai, muito mais acelerado que o começo do filme, eles têm a briga. Ai volta pra mesma cena, ele tomando o tiro.

– Da hora

– Ai ele dá cinco tiros nas costas do Geremias, a Maria Lúcia vê que o João estava morrendo. Chora e se mata junto. As pessoas, comemoram e ai dá pra ouvir a gritaria. O filme, acaba.

– Final retumbante.

– Curtiu?

– Acho que você acha que é o Glauber Rocha

– Não mano

– Que tal se achar o George Lucas e fazer o Caboclos no Espaço?

– Hahahaha

– Ele ia arrebentar em Tatooine.

– A piada só foi engraçada antes.

– Eu te arrebento cara, minha idéia era original, mas a sua é melhor que a minha.

– Vem ai, machão.

– Prefiro pagar a conta. Garçon?

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Categorias:Eu só quis dizer Tags:
  1. junho 8, 2011 às 4:45 pm

    Eu curti. bjs

    • Leandro
      junho 9, 2011 às 3:19 pm

      Obrigado 🙂

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