Início > Eu só quis dizer > No Bar (parte 1)

No Bar (parte 1)

cervejaNo bar, sábado à tarde

– eu acho que todo mundo tem essas idéias, sabe. Todo mundo tem idéias e acaba achando que é a pessoa mais inteligente do mundo.
– verdade.
– todo mundo é egocêntrico
– também acho. Mas para de enrolar ae, qual a sua idéia?
– eu fiquei imaginando assim. Pera ai. Garçon, traz mais uma, por favor? E manda também umas batatinhas aqui? Ae morrapaz. Eu gosto desse garçon, ele é gente fina.
– é, é bom

 – então. A idéia é assim: um casal de uma menina riquinha, patizinha mesmo. E um cara que cresceu, sei lá, na zona leste. Em Arthur Alvim, Itaquera. Um lugar desses. Ela é zona oeste. Ai velho, eles começam se casando, pra os personagens não precisarem ter passado e bla bla bla.
– to ligado
– E a mina é chata pra carai sabe. Ela é bem mulherzinha mesmo. Cobra a perfeição do cara. Ela reclama o tempo inteiro que ele não sabe fazer nada direito, não respeita o cara em casa. Já ele é do tipo zona leste mesmo, um cara que curte uma festa, dar uma volta de carro, corinthiano roxo
– mas por que corinthiano?
– será que é por que ele mora na zona leste?
– e o que tem a ver?
– Estação corinthians-itaquera?
– ah. Ô, bebe a breja ai que tá esquentando.
Ele vira o copo.
– Nada, tá boa pra caramba. Dá seu copo ai. Então, ele era corinthiano e a mina ia pra Disney todo ano. Ela achava que era a pin cesinha do pai
– hahahaha pincesinha
– é, mas tem que separar a palavra né. Criança tem pulmãozinho, ai tem que dizer que é pin (respira) cesa. Bom, mas ai o cara teve infância pobre e tal, e começam os flashbacks. Ele trabalhava numa mercearia quando moleque, saiu de lá pra ganhar mais e tal e foi que foi até que ele foi trampar numa loja de carros. Lá era o mais próximo que ele consegui chegar daquele sonho ter um carrão a hora. Ele tinha um carrinho normal assim, tipo um Gol, mas ele deixava o carro da horinha. Comprava uns baratinhos no Deal Extreme pra tunar o carro, mas tinha bom gosto. A mina conheceu ele em alguma festa, sei lá, e ai começaram a namorar. E tipo ele brincava de navinha com os irmãos e curtia muito uns filmes de terror. Ele meio que evitava levar ela pra casa da família dele, não por nada, mas por que ela não curtia muito sabe. Ai ele usava a desculpa que a mãe dele estaria em casa, aliás, ela era gente finissima, e que ele achava que ela não ia gostar de estar com a sogra.
– Sua breja tá pegando dengue ai, essa água parada.
– é pra eu parar de falar?
– não, tá da hora. Mas se o aedes aparecer aqui a gente tá ferrado.
– ai a mina nunca teve se esforçar pra nada. Tudo ela ganhou do pai, ele super protegia ela. E ela era até preconceituosa sabe. Numa briga ela fala pra ele que ele devia ter algum problema mental, por falta de vitamina, ou o que quer que seja que as pessoas quando comem mal ficam lerdas. Ele tentava manter uma vida sussa, mas a mina falava demais, gritava, fazia escândalo. Ele tava meio de saco cheio sabe. Mas ele gostava demais da mina. Eu imagino ela nem sendo tão gata sabe, uma mina que passa no inmetro e só. Ela fica bonita quando fica simpática, lá pro final da história.
– legal isso. Eu tudo o que é filme as minas são gostosas e ai estraga o enredo.
– Mas num é um filme.
– Então é o que?
– É um livro
– Vai virar uma bíblia isso ai
– Nada, é só a introdução que é lerda. Talvez vire só um post no blog.
– Ah tá. Mas vai.
– Ai velho, um dia eles têm uma briga feia e resolvem sair com os amigos em separado. Que estavam muito tempo sozinhos e que era bom sairem e tal, até pra ter o que conversar depois. A mina conversa com 2 amigas e elas resolvem ir pra um spa. O cara nem sabia o que era spa, mas sabia que não tinha nada a ver com clube das mulheres e ficou sussa. Ele mesmo foi jogar bola. Comprou uma chuteira, caneleira, uma bermudinha Axl Rose. Camiseta ele já tinha né, aquela roxa
– Vixe, que zuado
– Cara, não é um filme de Corinthians e São Paulo. Ele só é corinthiano por que é da zona leste.
– Mas é um filme?
– Pára mano, é uma história escrita.
– hahaha. Tamo bebendo demais. Oh garçon, manda outra aqui que a gente tá ficando bebado.
– Você tá contando?
– Foram só seis.
– Então. Ai ela compra aquelas calças brancas largadas e aquelas blusinhas regatas, brancas, coladinhas que ficam assim grudadinhas.
– hmmm
– Da hora né. Então. Ai compra aqueles sutião confortável, uma calçola e tal. Era uma espécie de ritual pra eles comprarem, por que iam se arrumar pra uma coisa só deles. Ai a mina já tava toda zen, de saída, quando ele chegou. Ele todo feliz, mostrou pra ela as paradas que ele comprou. Só que a mina quando viu as caneleiras ficou maluca, começou a xingar o cara
– Ué, por quê?
– Por que ela xingava tudo o que ele fazia. Ela achou que ele podia ter comprado chuteira, mas que não tinha necessidade de caneleira, que homem é tudo cavalo, que já deu, que eles não iam mais sair e bla bla bla. Aquele falatório meio que chateou o cara. Mesmo assim ele pegou as coisas e foi pro jogo. Ele não tava mais feliz, embora ele sempre fingisse que estava bem, que engolia o papo dela. Ele tentava ir de boa, mas não conseguiu muito. Ele não ligou o rádio do carro e ficava aquela briga ecoando na cabeça dele. Ele chegou um pouco atrasado, o jogo estava rolando a uns 2 minutos. Ele só se vestiu e entrou no campo. Comprimentou os amigos durante o jogo já e ele tava de costas quando uma bola bateu nele violentamente na nuca. Ele tava dando um salve pro goleiro, chutaram e você tá ligado né.
– Desmaiou, bateu com a cabeça na trave
– Isso.
– E perdeu a memória
– Não. Ele foi pro hospital, mas teve alta rápido e tal. Ele voltou cedo pra casa, ligou a tv e tava passando um filme de zumbis. Ele acabou dormindo na frente da TV. Teve uns pesadelos, ficou meio ardendo em febre e tal.
– E a mina dele?
– Ela tava lá, falando mal dele num spa enquanto era massageada. Depois ela continuou falando um monte quando tava com aquelas melecas na cara e dois pepinos nos olhos, ficou falando mal quando lavava o cabelo. Se bem que eu acho que era melhor virar um filme. Bom, mas ai… é, dá pra fazer num conto. É só resumir pra não ficar chato. Garçon?
– Essa mina era das piores né.
– Ah, imagina, era pati e o cara era maloqueiro sofredor. Mas ai ela tava lá quando foram pra um lugar que era tipo meditação. Tinha um árabe lá, turbante e tal, e falando dos princípios do Islamismo. Podia ser um budista também, mas hoje a moda é falar mal de árabe. Eu curto esses caras, eu acho mó mancada o que fazem ai do Bin Laden. Então era da hora né, passar um pano pros caras. E o taliba lá falando sobre perdoar, sobre o papel da mulher em servir o homem. Ela meio que reluta no começo, mas ele fala que a mulher tem esse papel, e que o homem tem o papel dele. De cuidar da mulher também. Não é por que o papel da mulher é cuidar do homem que o do homem não era cuidar da mulher. Ele fala que as mulheres costumam misturar tudo, que elas precisavam de por lógica nos próprios pensamentos e tal, ai ele fala daquela meditação, de que sabia que elas estavam pensando nos pais, nos maridos e tal. A mina fica meio surpresa sabe, o discurso do cara é impecável. E ai ela se lembra de como o marido era paciente, que ele sempre tinha uma palavra de consolo pra ela, que ele sempre estava ali. E ela percebeu o quanto magoava o cara e que ela não fazia o único papel dela no mundo, que era o de ser esposa. Nem trampar a mina trampava.
– Mas que chave de cadeia mano.
– Então, ai ela resolve mudar. Ela finalmente se toca de tudo o que o mano falava fazia mais e mais sentido. E ficou com dó do marido. Ai é que o velho lá fala que o pior sentimento que a gente pode ter por alguém é pena. Ele disse que se elas tratavam as pessoas como não se deve, e as pessoas continuam caladas e servindo, que devíamos respeitar e servir essa pessoa. Admirar inclusive, mas não ter dó. Ai quebra a mina né mano. Ela resolve sair de lá onde tava, claro, depois de pintar a unha do pé e tal, já que eles tinham pagado por aquilo e tava anoitecendo quando ela resolve passar num Shopping e comprar a camiseta oficial do corinthians, daquele ano mesmo. Ela lembrou que o Ronaldinho jogava lá e que ele era fã.
– mas quem não é fã do cara né velho? Ele é demais.
– Ai, além disso, ela resolve que naquele dia ia servi-lo como nunca fez. Ela ia parar de brigar e prometeu pra si mesma que evitaria qualquer tipo de discussão. Até por que ela viu que o cara nunca começava uma. Ela voltou pra casa com presentes e quando abriu a porta encontrou ele com a cabeça enfaixada. Ela ficou preocupada e perguntou o que tinha acontecido. Mas tava um doce cara, ela tava um amor. Ele estranhou, por que sabia que ela ia falar um monte. Ela sempre falava.
– To começando a odiar essa mina ai.
– Ai velho, ela deu um beijo nele e foi até o quarto, telefonou sei lá pra onde e pediu uma comida árabe em casa. Ela nunca tinha feito isso. O cara tava meio doente, com umas cenas do filme na cabeça, ele estava misturando as coisas. Ele senta na mesa desconfiado, a mina não falou muito, nem ele. Ela foi ao quarto e trouxe o presente pro cara. A tal da camisa do Ronaldinho e ai ele entendeu o que tinha acontecido. Ele tinha certeza que aquela não era a mulher dele.
– Vixi mano
– Vai vendo. Ai ele meio de zói assim e a mina toda feliz, doce e sorridente. Ele começou a achar que ela tava ruim, entrou no quarto, catou uns baratos que ele tinha lá. Quando ele chegou na copa, a mina tava sentada ainda, ele cata ela e amarra na cadeira rapidinho, e tampa a boca dela com um pano pra não gritar. Suja tudo de babaganush
– Agora começou a história
– ai ele todo suado já, delirante, desmaia, na frente da mina. Passa tipo 1 hora quando ele acorda e ela tá maluca de raiva, ruminando umas palavras que ele não entende por que ela tá com um pano na boca. Ai o cara por não entender, cheio dos barulhos dos filme na cabeça, com febre, suando, ele entende que a mina dele é uma alienígena. Ele começa a bater na mina, perguntando onde tá a esposa dele. Ela faz caras que ele nunca tinha visto na vida, grita mais coisas, ele bate mais. Ela começa a chorar e abaixa a cabeça, ai ele vê que o cabelo dela, antes preto, tava vermelho. Ai ele tem certeza que na verdade ela não era um robô, mas uma alienígena.
– Você já tinha dito que era alienígena antes
– Não, eu queria ter dito robô
– Tá
– Ai ele começa a torturar cara, a machucar ela de verdade e tal. Não podia ser a mulher dele. Não podia, tava tudo errado, eram os alienígenas invadindo a terra e ele queria saber onde estava a esposa. Ai ele começa a chorar, cai no chão ajoelhado. Ele olha que tem o pano na boca da mina e aquela puta cara de ué que ela tava fazendo, junto com a cara de “eu vou te matar”. Ai ele percebeu que era a esposa.
– Certo
– Por que ela tava fulminando ele, como sempre fez. Ai ele entendeu que tava tudo errado, que ele não tinha vitamina no cérebro. Ai ele desamarra primeiro os pés, depois desamarra os braços e, por último, o pior, ele tira o pano da boca dela. Ai ela levanta e começa uma saraivada de xingamentos, socos e pontapés, sobem as letrinhas e fim.

Segundos de silêncio, um gole, outro.

– Velho, você conseguiu fazer a pior história da história do cinema mundial. Nunca um filme que na verdade e um livro e post no blog foi tão ruim antes.
– Vai se ferrar ô!
– Mano, voce cagou foda nesse final. Eu preciso contar essa pra todo mundo. Alienígena hahahahahahahahaha. E você achando que tá abafando! Hahahahahahaha. Você acha que é quem mano? O glauber rocha? hahahahahahahaha
– Eu só não te arrebento por que… eu acho que você tem razão. Você já tá me humilhando ai mano, para. Ô garçon, fecha pra nós?
– Não, não fecha ainda! Calma mano. Desculpa, mas eu to chorando hahaha. Velho, relaxa que agora é você quem vai ouvir minha história.
– Ih! Garçon, traz uma Salinas ai, que agora precisa de energia.

Anúncios
Categorias:Eu só quis dizer Tags:
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: