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Dia de motoqueiro

Acordo com a boca seca, um gosto de cabo de guarda-chuva chinês da Chenson. Meu rádio relógio Philco-Ford tocava uma música muito ruim. Dei um tapa nele e o bixinho caiu de cima da caixa de Sabão em Pó Campeiro que eu uso de criado mudo, se espatifando. Foi minha bisa-avó que o deixou pra mim quando foi pro beleléu… tadinha, tá lá no Quarta Parada agora.

Coloco meu chinelo Havaianas, vou até a cozinha tomar um café Jardim e comer um pão Tico da Panco com margarina Mesa. To meio distraído, e o pão cai. Claro, né? Com a margarina virada pra baixo. Percebo que ainda estou com bafo da Pirassunga 51 que tomei ontem, minha mão está melada da Cascola que eu cheirei. Como isto veio parar aqui?

Tenho também alguns pingos do esmalte Colorama que também cheirei e distraidamente deixei cair.

É, ontem a noite foi brava.

Tomo uma ducha Corona, me limpando com Phebo, passo o xampu Darling da minha mina, tô limpo e pronto. Pego meu telefone Siemens e ligo pros meus amigos da boca: Testa, Marciano e o Biro. Tô preocupado com a conta da Telefonica, vai vir alto este mês com a minutagem. Visto minhas roupas C&A, um jaco California Racing, encho minha mochila da mesma marca do Guarda-chuva. É uma porcaria, ela está rasgada, mas é o que dá. Hoje é um dia lindo, sol escaldante, vento seco. Perfeito, vou pegar minha Honda ML e mudar de vida.

Encontro o Testa na esquina e dou a garupa pra ele. Ele tem um capacete Mach5 e eu um Peels que está muito fedido. A gente vai até a casa do Marciano e do Biro combinar tudo. Seguindo pra marginal Tietê, fomos parados pela polícia, que nos revistou e, claro, com razão, encheu a gente de porrada e xingou tres gerações pra cima e umas duas pra baixo. Até meu neto que nem pensa que vai nascer foi ofendido! O Biro foi o que menos apanhou por que o policial também era São Paulino.

Minha ML tava certinha, sei lá como, mas a RD do Marciano, rapaz… ele tentou dar uma nota de 50 da Casa da Moeda Do Brasil, mas não é que o policial era honesto? Foi levado prela polícia, eu nem quis saber. O Biro pegou um bumba SPTrans pra casa, e eu segui sozinho com o Testa. Mas hoje é dia hein?

Olho no meu Iron man e já é mais de meio dia. Acelero a bixinha e vou lá pro meio da favela. Nem te falo o nome da favela, viu? Lá a gente pegou os aparatos e partimos para a nossa aventura do dia. Mal posso esperar.

Fui ficando sem gasosa, mas tá limpo. Parei a moto perto de um Bradesco lá no centro, entro na agência e vou até o caixa eletrônico. De lá saco de dentro da mala uma meia calça Kendall, dou pro Testa e ele me dá um berro da Taurus. Só que nem eu, nem ele com aquele óculos Chilly Beans olhamos pra trás. Tinha uma câmera da Philips olhando por nós.

Cheguei abafando na agência, cheio de moral “Todo mundo pro chão c*r*lh*!!!”, e não é que a galera deitou? Só ficou um de pé, de terno Colombo, olhando um papel. Apontei a arma “deitadinho ai no tabacow bacana!”. Gritei de novo, e uma mina sussurou e contou o que estava acontecendo. Chamei o Testa e ele deu um toque no rapaz, já que ele era deficiente auditivo e não estava usando o aparelho da Telex. O Testa fez umas coisas engraçadas com a mão, o cara deitou.

“Você ai”, falei pra mina “levanta e vai passando a grana do patrão”. Passei pra ela um saco de plástico do Carrefour, ela foi enchendo de grana.

Corremos pra mililinha (minha ML) e ela não queria pegar. O Testa me ajudou a empurrar até a ladeira, pegou no tranco e a gente saiu correndo. Tinha uma madame doida que soltou o cachorro e acabei atropelando o bixinho da IG. Ainda bem que eu tenho um mata-cachorro. É pra isso né? Quebrei no caminho uns 3 retrovisores… mas ih, f*deu! Não é que eu esqueci o capacete na agência? Ai estamos eu e o Testa sem capacete, descendo a avenida de meia calça na cabeça, quando uma viatura pára a gente já xingando. Umas 3 azeitona Castelo furam meu tanque. Nem sei por que o cara atirou, mas ai eu desci, mão pra cabeça, deita no chão, chute na cara, delegacia, Rede Globo, meu nome nos jornais, mãe chorando, mina me corneia e me larga. Passaram cinco anos, o testa foi pra Universal e eu liguei na pizzaria que o Biro trampa. Ele veio livre na Turuninha dele pra me entregar a pizza, quentinha. Me deu um abraço, chorou, eu também, ele foi embora, fechei a porta com um soluço.

Tocou o Amado Batista de novo no meu rádio-relógio, dei uma bica, sentei, comi, o barraco estava cheirando a mofo. Continuei chorando.

Parece que tudo nesse mundo termina em pizza.

(Originalmente publicado sabe-se lá em que dia de 2007, no fórum do site motonline.com.br em paródia ao editorial Um Domingo Qualquer)

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Categorias:Eu só quis dizer Tags:
  1. setembro 18, 2009 às 8:11 pm

    porra cara ao menos a sacola plástica by Carrefour® podia ser a sacolinha retornável!! Mas tá perdoado… o pior é a azia da pizza deformada dentro do baú… lastimável!!!

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